O Circulo Solar: O Rastro Pagão da Luz Solar no Coração do Cristianismo
- Cain Mireen

- 11 de dez. de 2025
- 7 min de leitura
Um olhar herético na celebração e objeto que é a Coroa do Advento.
O Olhar Herético significa simplesmente uma forma de enxergar o mundo que nos dias de hoje é totalmente "cristianizado”, um mundo que nos dias de hoje deixou os velhos costumes e antigos deuses de lado e muitas vezes apagados, e que a Nova Fé deturpou muitos dos antigos dias sagrados e a velha fé deu lugar a essa nova forma de fé. Para o praticante do velho estilo de bruxaria ter um olhar herético é a postura de quem se recusa a aceitar somente a interpretação oficial, canônica ou dominante de uma tradição e aqui estamos falando do catolicismo.
O praticante folclórico vai buscar através do Olhar herético o que ficou escondido, o que foi proibido, o que foi apagado e o que é considerado perigoso. Toda religião organizada cria limites: o que é permitido, correto e aceitável. O herético é aquele que quer ir além do limite, porque sabe que parte do sagrado está exatamente ali na fronteira, no limiar, no proibido. A bruxa possui o olhar serpentino, o símbolo do conhecimento, astucia e da esperteza; na sua Arte Sábia, ela busca o que é sinuoso, vai pelo caminho menos esperado, busca aquilo que está nas entrelinhas; Na bruxaria é o olhar do andarilho, do homem sábio, da sábia mulher que sabe reconhecer os sinais do mistério por trás dos mistérios posto pela Nova Fé. É através de essa olhar herético que encontro os mistérios sazonais nos objetos da nova fé.

O Natal é, no Brasil, uma das celebrações mais fortes do calendário cultural. Mesmo sob o sol intenso do verão, mesmo distante do inverno que lhe deu forma, ele permanece vivo, brilhante e carregado de simbolismos que atravessam séculos. Para muitos, o Natal é simplesmente o nascimento de Cristo; para outros, é um reencontro familiar; para outros, ainda, uma época de luz, magia e esperança. Mas por trás dessa fachada luminosa existe um tecido profundo, uma tapeçaria tecida de antigas tradições solares, festivais pagãos e símbolos que o cristianismo adotou, transformou e preservou.
Neste texto, vou explorar um desses símbolos: a Coroa do Advento, uma peça aparentemente cristã, mas que carregam em suas chamas e no seu verde perene algumas das imagens mais ancestrais que o povo ancestral conheceu. E veremos como, mesmo vivendo no Brasil, é possível compreender essa tradição a partir do seu aspecto solar e herético, resgatando significados antigos e revivendo uma visão pagã através da própria liturgia cristã.
A Coroa do Advento, tão comum em igrejas, lares europeus e até em algumas famílias brasileiras, consiste num círculo de ramos verdes, geralmente pinheiro, com quatro velas que são acesas nas quatro semanas que antecedem o Natal. Essa tradição nunca foi exclusivamente cristã. Muito antes da existência do Advento na forma que conhecemos nos dias de hoje, povos germânicos, nórdicos e centro-europeus já utilizavam círculos de ramos perenes, tochas ou velas acesas e tinham festas do retorno da luz no coração do inverno.

O inverno trazia o perigo da escuridão prolongada e da escassez. Por isso, os povos do norte acendiam luzes para “chamar o Sol de volta”, como se a chama humana pudesse recordar ao cosmos que a vida ainda persistia. Um círculo de ramos verdes representava a vida que resiste, e as chamas eram sinais ritualísticos de esperança e magia. Quando o cristianismo se estabeleceu entre esses povos, tais práticas não desapareceram foram absorvidas, batizadas e resinificadas. O círculo de vida virou a Coroa do Advento, a chama que chamava o Sol passou a anunciar Cristo, “a Luz do Mundo”. Mas a estrutura simbólica permaneceu intacta.
Historicamente, o dia 25 de dezembro não foi escolhido ao acaso, na Roma antiga, antes do cristianismo ser religião oficial, celebrava-se nessa data o festival do Sol Invictus, o “Sol Invencível”. Era o dia em que o Sol, após diminuir durante meses, parecia “renascer” e voltar a crescer no céu, uma vitória contra a escuridão. Quando o cristianismo se expandiu por Roma, os bispos e teólogos associaram Cristo ao Sol espiritual: "Lux Mundi" A Luz do Mundo, "Oriens" O Nascente, aquele que traz a aurora, "Sol Salutis" O Sol da Salvação.
Assim, celebrar o nascimento de Cristo em 25 de dezembro foi natural. Ele se tornou o novo Sol, não mais físico, mas espiritual. E as antigas festas solares continuaram ali, apenas com outra roupagem, mas que mantinha a mesma essência espiritual dos antigos festivais e ritos ancestrais. Na teologia cristã, as velas do Advento representam virtudes e temas espirituais. Mas na estrutura simbólica ancestral, antes disso, elas eram: marcadores das quatro semanas de vigília, sinais do crescimento da luz e um processo alquímico no qual a chama humana imita o retorno solar.
Nas antigas religiões pré-cristãs, o inverno era um momento liminar: a escuridão precisava ser suportada e, ao mesmo tempo, vencida pela fé na luz que retornaria. Quando você acende uma vela do Advento, você está repetindo um ritual ancestral: alimentar a chama que traz o Sol de volta. E quando as quatro velas se completam, a "luz retorna" o Sol renasce. Assim, mesmo sem intenção, o Advento é um rito solar preservado dentro da prática cristã.
No Brasil, as estações são invertidas em relação ao hemisfério norte, mas herdamos os símbolos do inverno. É curioso, pois aqui o Natal é quente, luminoso, vigoroso, solar por natureza. É como se o Brasil tivesse intensificado aquilo que, na Europa, era simbólico. Aqui, no auge do verão, o Natal se torna uma celebração da força completa do Sol, não do seu nascimento, mas de sua exaltação, realeza, magnitude e completude.
Para quem pratica uma espiritualidade mais herética, pagã ou simbólica, isso abre brechas fascinantes para adotar a sua pratica espiritual mais religiosa. O Cristo-Sol torna-se o Sol pleno do verão. A Coroa do Advento passa a representar a Roda do Ano inteira com suas quatro velas representando as quatro estações o caminho que o sol percorre no céu, não apenas a espera do Sol. O brilho do Natal é solar. A luz não nasce das trevas ela atinge o seu auge. Essas são as minhas interpretações sobre a heresia do Natal, não aceitar o que ela propõe, mas resinificar os símbolos e os atos para a minha Arte Astuta.
Na maioria das tradições cristãs, cada vela corresponde a um tema espiritual ligado à espera do nascimento de Cristo:
1ª vela - Esperança (ou Profecia) Representa as profecias do Antigo Testamento e a esperança do Messias.
2ª vela-Paz Simboliza a paz trazida por Cristo e a preparação interior.
3ª vela-Alegria É a vela rosa, chamada Gaudete. Expressa alegria porque o nascimento está próximo.
4ª vela - Amor (ou Pureza) Marca a semana final antes do Natal, lembrando o amor divino que se manifesta em Cristo.
Abaixo dou a minha interpretação da minha Coroa Solar que realizo todos os anos desde que compreendi o mistério da Coroa do Advento e os mistérios que liga á Cristo, a Fé e a Bruxaria como uma Arte Astuta.
1ª vela
A Noite Antiga é a primeira vela da Coroa que é acesa depois de um rito de contemplação, meditação e palavras sagradas ditas pela minha boca, aqui a vela a chama inicial na escuridão representa o mundo antes da luz, o estado bruto, a matéria dormindo. O ventre da escuridão Fértil onde a Deusa Branca como a Geradora da vida é honrada.
2ª vela
A Luz que Cresce a centelha solar que desperta. Aqui o Sol ainda é promessa, impulso, movimento. É a segunda vela acesa que representa o pequeno brilho solar, a iluminação inicial no longe horizonte, é o avanço da roda estacional.
3ª vela
O Sol Encarnado, a manifestação da luz no mundo. Pode ser Cristo, pode ser o Sol renascendo, pode ser o Fogo Divino encarnado na Terra depende da sua leitura espiritual, aqui é a terceira vela acesa é honrado o Velho Iluminado, o Coroado de Chifres de Fogo, o Deus-Bode que senta no trono dourado, aqui onde a alegria é anunciada como o Sol ganhando suas forças, o sol da primavera, o Grande Garanhão dos Bosques.
4ª vela
O Sol Coroado, a plena vitória do fogo. É a quarta e última vela acesa, é o símbolo máximo da exaltação do Sol do verão, não do renascimento, mas da glória solar. Realeza, majestade, plenitude e vitória são atributos dado nesse ritual. O Garanhão Iluminado chega para vencer todo o domínio das trevas, é o auge do rito do verão; Aqui também é a leitura herética da Vela da Iluminação Espiritual-Mente- Corpo, o Fogo que queima no coração da bruxa trazendo todos os dons da Arte Espiritual.

Quando as quatro velas estão acesas, você tem o Circulo Solar ou a Coroa Solar, um microcosmo do sol; um ritual preservado pela liturgia cristã. A observância astuta do olho da bruxa ela é capaz de enxergar além dos símbolos modernos e imposto pela Nova Fé enxergou além do atual, conectamos ao significado ancestral e pagão do rito que a Nova Fé escondeu dentro do cristianismo. Aqui no Brasil, onde o natal coincide com a maré do auge do verão o simbolismo e nem o ritual é perdido, ao contrário ele é resinificado para as minhas Obras Espirituais. Quando eu acendo as quatro velas não honra um sol renascido e sim de coroar um sol que reina.
O Círculo Solar Completo
A coroação da luz.
A plenitude do Fogo Divino.
O triunfo da consciência, da vida e do espírito.
Assim, o Natal brasileiro, apesar de aparentemente fora do “contexto original”, torna-se ainda mais solar, ainda mais luminoso, ainda mais próximo do paganismo que o originou. A Coroa do Advento que eu chamo de Coroa Solar é uma ferramenta de exaltação ao Deus-Sol suas quatro velas acesas honra a luz, celebra a presença da vida, representa o circulo das estações, o trono para o Sol.
A força do Natal não está apenas na tradição cristã, mas naquilo que ele carrega em silêncio: o eco das fogueiras ancestrais que eram acesas para o Sol, dos círculos verdes que remetem a vida, das luzes acesas contra a escuridão, e do Sol que sempre retorna. Ao acender uma vela do Advento, ao montar uma coroa verde, ao celebrar a noite iluminada de 24 de dezembro, você participa de um ritual, atos e gestos ancestrais que atravessou séculos, culturas e religiões um ritual que sobrevive porque fala a uma verdade universal: a luz sempre volta o Sol sempre renasce, o fogo interior nunca desaparece. Para aqueles que buscam uma leitura herética, simbólica e folclórica, o Advento e o Natal se transformam num rito solar completo: um chamado à luz, ao renascimento e ao eterno girar da Roda do Ano.

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