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Bruxas Brancas e Bruxas Negras no Oficio Tradicional

  • Foto do escritor: Cain Mireen
    Cain Mireen
  • 13 de mar.
  • 7 min de leitura
Quando se fala em bruxaria, uma das distinções mais recorrentes é entre bruxas brancas e bruxas negras. Na interpretação popular moderna, essa divisão costuma ser entendida como uma separação moral entre bem e mal. Contudo, dentro da tradição histórica e folclórica da bruxaria europeia, essa distinção é muito mais complexa e sutil.

Em muitos contextos tradicionais, especialmente no folclore do oeste da Inglaterra e da Cornualha, a mesma bruxa poderia ser vista como benéfica ou maléfica dependendo da perspectiva de quem a procurava. A escritora e praticante de bruxaria tradicional Gemma Gary observa que, no oeste do país, a distinção entre bruxa “branca” e “negra” muitas vezes desaparece completamente:

“Você pode ouvir no país ocidental ‘bruxas brancas’ e ‘bruxas negras’, mas na verdade é a mesma coisa. A bruxa do país ocidental é ‘branca’ ou ‘negra’ dependendo inteiramente da natureza do seu relacionamento com o ofício dela.” (Gary, 2004)
Gemma Gary
Gemma Gary
Nesse contexto, a classificação não depende da moralidade da bruxa, mas da posição da pessoa em relação ao trabalho mágico. Para um cliente que busca ajuda, cura ou proteção, a bruxa é considerada “branca”. Porém, para alguém que sofre os efeitos de um feitiço ou maldição, ela pode ser vista como “negra”. Por essa razão, muitas bruxas tradicionais eram consideradas praticantes do “duplo caminho”, capazes tanto de curar quanto de amaldiçoar.
 
Historicamente, nas comunidades rurais da Inglaterra, a bruxa ou o praticante de magia popular exercia várias funções: curandeira, parteira, erveira, conselheira espiritual e também agente de justiça mágica.

Essas figuras muitas vezes chamados de cunning folk  eram procurados para:
  • curar doenças
  • remover feitiços
  • proteger casas e plantações
  • encontrar objetos perdidos
  • enviar maldições contra injustiças

Nos registros do oeste da Inglaterra, a prática de lançar uma maldição era conhecida como “O Piscar da Coruja” ou “Feitiço da Coruja”, enquanto o ato de devolver um feitiço enviado por outra pessoa era chamado de “viragem” ou “contra-deterioração”. Assim, o mesmo praticante podia atuar tanto na cura quanto na retribuição mágica, refletindo uma visão antiga de justiça espiritual.
 
Outro modo de compreender essa distinção aparece em interpretações espirituais modernas da bruxaria tradicional. Nesse sentido, as chamadas bruxas brancas eram frequentemente associadas a práticas de cura e proteção, muitas delas eram parteiras, erveiras e mulheres sábias que utilizavam conhecimentos de plantas, encantamentos e rezas mágicas para beneficiar a comunidade.
Pinterest
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Já a figura da bruxa negra foi historicamente associada àquela que utilizava magia para causar danos como doenças, infertilidade ou destruição de colheitas frequentemente acusada de trabalhar com espíritos ou demônios. No entanto, essa interpretação foi profundamente influenciada pela visão religiosa da época, especialmente durante os períodos de perseguição às bruxas.

Dentro da bruxaria tradicional contemporânea, muitos praticantes entendem que a diferença entre essas duas categorias não é moral, mas funcional e cosmológica.

Nesse contexto, pode-se compreender que:
  • Bruxas chamadas de “brancas” trabalham frequentemente com forças de vida, fertilidade e criação, representadas simbolicamente pelo Deus Cornífero em seu aspecto vivificante da natureza e pela Dama em sua face maternal.
  • Bruxas chamadas de “negras” trabalham com forças de morte, transformação e mistério, ligadas aos poderes do submundo, do destino e da renovação espiritual.
 
 
O escritor e ocultista Robin Artisson descreve a bruxa como uma mediadora entre mundos:
“A bruxa é uma mediadora entre vida e morte, luz e sombra. Trabalhar com entidades da escuridão não significa mal, mas sim compreender o ciclo natural do mundo.”(Artisson, 2007)

Dentro dessa visão, a bruxaria não se divide entre magia boa e magia má, mas entre forças complementares da natureza. A própria natureza funciona nesse equilíbrio e a vida depende da morte, e toda criação surge de algum tipo de destruição. Quando uma planta é colhida para produzir um remédio, por exemplo, sua vida é transformada para gerar cura. Esse princípio aparece em muitos ensinamentos da bruxaria moderna. A sacerdotisa Gardneriana e Bruxa e autora Doreen Valiente explica:

“Na prática da bruxaria tradicional, tudo está em ciclos. Não existe luz sem sombra, nem criação sem destruição.”(Valiente, 1973)
O fundador do famoso Museu da Bruxaria na Inglaterra, Cecil Williamson, também observou que os praticantes históricos da magia popular trabalhavam tanto para curar quanto para retaliar injustiças mágicas:

A magia não distingue entre bem e mal; distingue entre resultado e propósito.”(Williamson, 1959)
Da mesma forma, o bruxo tradicional Robert Cochrane enfatizou que a arte da bruxaria está profundamente ligada aos ciclos naturais:

“A bruxa trabalha com forças da natureza, compreendendo quando é tempo de semear, colher ou cortar.”(Cochrane, 1968)

Assim, aquilo que muitos chamam de “magia negra” pode ser compreendido como magia de transformação ou encerramento de ciclos. Divindades associadas à morte e às sombras não representam necessariamente maldade, mas sim o poder de dissolver o que já cumpriu seu papel para permitir o renascimento.
 
A distinção entre bruxas brancas e negras, portanto, não deve ser vista apenas como uma divisão moral. Dentro da tradição histórica e espiritual da bruxaria aquela que eu pratico, ela reflete uma compreensão mais profunda da natureza e de seus ciclos.

A prática da bruxaria tradicional ensina que:
  • vida e morte são inseparáveis
  • criação e destruição fazem parte do mesmo processo
  • a bruxa atua como mediadora entre forças opostas
  • intenção e responsabilidade são essenciais no trabalho mágico

Como resume Gemma Gary:
“A bruxa alinha-se com forças que podem curar ou destruir. O que importa não é a cor da magia, mas a consciência e responsabilidade de quem a manipula.”(Gary, 2004)

Dessa forma, a verdadeira bruxa tradicional não segue apenas um caminho de luz ou de sombra, mas caminha entre ambos  mantendo o equilíbrio entre as forças que sustentam o mundo.
Muitas bruxas brancas possui uma Dupla Fé. Imagem: Pinterest
Muitas bruxas brancas possui uma Dupla Fé. Imagem: Pinterest
Em minha própria vida conheci muitas mulheres que poderiam ser chamadas de bruxas brancas, embora elas nunca tenham usado esse termo para si mesmas. Nas comunidades onde viviam eram conhecidas simplesmente como curandeiras, benzedeiras ou rezadeiras  mulheres sábias que preservavam antigas práticas de cura, oração e magia popular.

Entre elas, lembro-me especialmente de uma mulher que marcou profundamente minha juventude. Quando eu tinha cerca de quatorze anos, surgiu uma verruga em meu rosto, do lado esquerdo. Como ela era considerada uma mulher de saberes antigos, procurei sua ajuda. Em vez de me dar um remédio comum, ela me ensinou uma pequena simpatia que envolvia sal, fogo e a oração do Senhor. Segundo ela, o ritual faria a verruga secar e cair naturalmente. Segui suas instruções com atenção, e alguns dias depois a verruga realmente havia desaparecido.

Esse tipo de prática possui paralelos interessantes em outras tradições. Na Inglaterra, por exemplo, existiu uma tradição mágica conhecida como “Wart Charmers”, ou Encantadores de Verrugas homens e mulheres especializados em remover verrugas por meio de encantamentos, rezas e pequenos rituais populares.

Aquela mulher também possuía um pequeno jardim de ervas atrás de sua casa. Ali cresciam plantas simples, mas carregadas de significados mágicos. Havia manjericão, que ela dizia servir como um perfume espiritual para atrair o amor; arruda, sobre a qual contava uma curiosa crença popular — de que só “pegava” verdadeiramente quando era roubada do jardim de alguém; e alecrim, que segundo ela era uma erva capaz de curar “tudo aquilo que não se pode ver”.

Ela também tinha um gato branco chamado Francisco, companheiro constante de sua casa e de seus afazeres cotidianos. Dentro de casa havia um pequeno altar doméstico. Sobre ele estavam imagens de santos e santas da fé cristã, terços, uma Bíblia e um recipiente com água benta. Era diante desse altar que ela realizava suas bênçãos e rezas, benzia crianças contra mau-olhado, quebranto e pé virado, e aconselhava aqueles que buscavam sua ajuda.
Ao olhar para trás, percebo que aquela mulher representava perfeitamente a figura tradicional da bruxa branca do povo  não uma bruxa no sentido sensacionalista ou sombrio da imaginação popular, mas uma guardadora de saberes antigos, alguém que unia fé, ervas, rezas e pequenas magias para cuidar das pessoas de sua comunidade.

Essa memória permanece viva em meu caminho, como um exemplo de como a bruxaria popular muitas vezes sobreviveu silenciosamente dentro das práticas de cura e devoção do cotidiano.

Se em minha vida conheci muitas mulheres que poderiam ser chamadas de bruxas brancas, mulheres de cura e de bênção, também tive contato com situações que representaram o outro lado dessa arte.

Não conheci muitas pessoas que pudessem ser chamadas de bruxas negras no sentido de utilizar a magia deliberadamente para causar dor ou sofrimento. Contudo, houve uma mulher em particular que marcou profundamente minha memória. Ela era inicialmente apenas uma conhecida e, algum tempo depois, acabou se tornando amiga de minha mãe.

Tinha olhos de um azul muito claro e uma presença intensa. Ao redor dela havia sempre uma atmosfera estranha: muitas vezes, quando algo dava errado, as pessoas ao redor acabavam atribuindo a ela alguma influência negativa. Não por causa de antigas superstições sobre olhos azuis e mau-olhado, mas pela sensação de que ela realmente cultivava práticas destinadas a interferir na vida dos outros.

Com o tempo, comecei a perceber sinais de que algo estava sendo dirigido contra mim e contra minha mãe. Aquilo se transformou, na minha experiência pessoal, em uma espécie de confronto mágico silencioso, no qual precisei recorrer a todos os recursos espirituais e protetivos que conhecia para enfrentar o que interpretávamos como ataques de malefício.
Um dos episódios mais marcantes ocorreu certa noite dentro de casa. De forma inesperada, um morcego apareceu na parede da sala. Ele parecia ter surgido do nada, como se tivesse se materializado no ambiente fechado. Quase ao mesmo tempo, minha mãe começou a sentir um mal-estar muito forte e repentino.

Naquele momento, dentro da interpretação espiritual que fazíamos da situação, associamos aquele evento a um possível trabalho mágico direcionado contra nós. Recorri então a práticas de proteção e purificação entre elas o uso do fogo para desfazer aquilo que sentia como uma influência nociva.

Dias depois soubemos que aquela mesma mulher havia sofrido um derrame e ficou com graves limitações físicas. Não afirmo esse acontecimento como um ato de vingança ou justiça sobrenatural, mas como parte de uma história complexa e profunda que envolve amizade, conflitos espirituais e experiências difíceis.

É uma história longa, cheia de nuances, e talvez um dia eu tenha a oportunidade de contá-la em detalhes. Ela envolve mulheres sábias, experiências espirituais intensas e aquilo que, em termos simbólicos, poderia ser chamado de uma verdadeira guerra mágica.

Dentro do contexto deste texto, contudo, essa lembrança serve apenas para ilustrar o outro polo da arte: quando a magia é utilizada com a intenção de ferir, causar sofrimento ou desequilíbrio. Nesses casos, a figura da bruxa negra surge como aquela que usa os mesmos conhecimentos da arte, mas direcionados à destruição em vez da cura.Assim como na natureza existem forças de criação e forças de dissolução, também na prática mágica encontramos aqueles que escolhem caminhos diferentes dentro do mesmo poder.

 

Fontes

Artisson, Robin. The Path of the Witch: Practical Magical Exercises. Llewellyn, 2007.

Cochrane, Robert. Letters to Bill Gray on Traditional Witchcraft. 1968.

Gary, Gemma. Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways. Troy Books, 2004.

Valiente, Doreen. An ABC of Witchcraft Past and Present. Robert Hale, 1973.

Williamson, Cecil. The Witchcraft Museum: A Record of British Folklore and Magic. Museum of Witchcraft, 1959.

 

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