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Oeste a Estrada do Outro Mundo e dos Mortos.

  • Foto do escritor: Cain Mireen
    Cain Mireen
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura
O Oeste na Encruzilhada da Arte Velha: Portal dos Mortos e Caminho do Mistério

Dentro da Encruzilhada da Arte Velha, o Oeste é o ponto onde o Sol declina e atravessa o limiar invisível rumo ao Outro Mundo. É por esta estrada que se honra o Velho, os mortos e os ancestrais. Como afirmou Robert Cochrane, o Oeste é a morada ancestral o lugar onde repousam aqueles que vieram antes de nós, e para onde toda vida retorna. O Oeste ou Ocidente é uma das quatro direções cardeais, oposta ao Leste, onde o Sol nasce. Aqui, ele se põe, desaparecendo no horizonte e simbolicamente iniciando sua jornada pelo reino invisível. A própria etimologia da palavra revela essa associação: “oeste” deriva da raiz indo-europeia wes, relacionada à noite, sendo cognata do grego antigo hesperos (estrela da tarde) e do latim vesper (noite). Da mesma forma, o latim occidens significa “queda” ou “declínio”, reforçando o simbolismo do pôr do Sol como morte e passagem.

Segundo Mircea Eliade, em diversas tradições arcaicas, o movimento solar não é apenas um fenômeno astronômico, mas um modelo mítico da existência: nascimento, vida, morte e renascimento. O Oeste, portanto, não representa apenas o fim, mas o início de uma travessia espiritual.

O Oeste é o Portal do Sol Moribundo, se no Leste ele nasce, e no ápice do céu atinge sua plenitude, é no Oeste que ele envelhece e adentra o Mistério. Este é o Reino Invisível, pois quando o Sol desaparece, ele não deixa de existir ele atravessa para o mundo dos ancestrais. Na bruxaria do Velho Estilo, como observado por Emma Wilby, o contato com espíritos e mortos frequentemente ocorre em estados liminares crepúsculos, encruzilhadas, margens. O Oeste é, por excelência, essa fronteira. iajar para o Oeste é aceitar a morte simbólica. E toda verdadeira iniciação exige essa travessia, não entra nos Mistérios sem antes atravessar o véu do fim.

Oeste é a Entrada parta o Outro Mundo - Imagem : Pinterest
Oeste é a Entrada parta o Outro Mundo - Imagem : Pinterest
O simbolismo do Oeste permanece válido no Brasil, mas deve ser compreendido em dois níveis: Simbólico e tradicional: baseado no movimento universal do Sol e o Cosmológico e local: adaptado ao céu e à paisagem do hemisfério sul Como aponta Claude Lévi-Strauss, os sistemas simbólicos se mantêm, mas se reorganizam conforme o ambiente cultural e natural. Assim, o praticante deve honrar tanto a tradição quanto o território onde pisa.


No Anel da Arte, os pontos da bússola estruturam o espaço mágico, o movimento do praticante segue o rastro solar: aquilo que o Sol traça no céu é refletido no giro ritual sobre a Terra. Contudo, em algumas tradições de bruxaria tradicional, como apontado por Nigel Jackson, as correspondências podem variar no sistema apresentado aqui:

Leste — Ar (nascimento, sopro)
Norte — Fogo (força, ascensão)
Oeste — Água (memória, morte, sonho)
Sul — Terra (corpo, manifestação)

O Oeste, portanto, é o domínio das águas profundas não apenas físicas, mas psíquicas e espirituais. Na Encruzilhada, a estrada do Oeste é conhecida como o Portão dos Mortos. É ali que se depositam oferendas aos ancestrais: maçãs, romãs, vinho escuro, bolos densos que carregam o simbolismo da vida que amadureceu e agora retorna à terra. Como observa Ronald Hutton, muitas tradições europeias associam o Oeste ao “país dos mortos”, frequentemente imaginado além do mar ou no horizonte distante. O ciclo também se reflete nas estações:

Primavera — Leste (Ar)
Verão — Norte (Fogo)
Outono — Oeste (Água)
Inverno — Sul (Terra)

"Oeste corresponde ao Outono o tempo da colheita, do declínio e da preparação para o repouso." Cain Mireen

Ao adentrar o campo da feitiçaria, o Oeste se torna o caminho dos mortos é ali que o praticante estabelece contato com espíritos, ancestrais e forças do Outro Mundo. Como descreve Gemma Gary, oferendas em cemitérios e encruzilhadas são práticas antigas de apaziguamento e comunicação com os espíritos locais. Assim, ao entrar em um cemitério, pode-se deixar moedas, bebida ou fumo voltados ao Oeste gesto de respeito ao guardião do campo dos mortos.

Nos ritos de comunhão com o Velho, realizados na encruzilhada, o ofício é conduzido voltado ao Oeste. O Velho manifesta-se como o Porteiro do Outro Mundo, Sentinela Negro, Guardião da Passagem

Um rio que corre em direção ao Oeste é considerado um Rio dos Mortos. Suas águas são recolhidas com reverência e utilizadas em práticas necromânticas, adivinhação e feitiçaria de fluxo e destino. Os objetos consagrados ao Oeste carregam o peso da ancestralidade e da morte, caveira de animal chifrudo como ídolo do Velho, guardião do limiar, caveira humana um elo com os ancestrais, tigela de oferendas um receptáculo para espíritos e deuses e uma foice o simbolo do Oeste no meu Ofício.

Ervas saturninas são especialmente associadas a esta direção. Como aponta Nicholas Culpeper, plantas regidas por Saturno possuem natureza fria, seca e melancólica, frequentemente ligadas à morte e ao tempo, um exemplo clássico é o cipreste, árvore funerária por excelência que possui um valor simbólico e folclórico ligado aos campos santos e aos mortos.

"O Oeste marca o Mistério da Iniciação.

É o fim que revela o começo oculto.

É a estrada onde o Sol morre e onde o espírito desperta."

Cain Mireen



Chamada dos Espíritos do Oeste

Ouvi, ó Espíritos do Oeste,Vós que habitais além do Véu e guardais a Estrada do Sol Poente.
Caminhai pela senda crepuscular,e aproximai-vos da borda do Anel da Arte Astuta.
Eu vos chamo, não como estranho, mas como sangue que recorda como aquele que trilha os passos dos Antigos.
Pelos poderes do Sapo Cinzento, guardião dos limiares e das águas profundas
Pelas raízes do Cipreste,Árvore da morte, da memória e do eterno retorno
E pelo Crânio do Primogênito da Serpente, selo do primeiro pacto e eco do sangue ancestral
Vinde.
Vinde pela Terra e pelos Céus,
Vinde pelas águas ocultas que correm sob o mundo,Ó Espíritos Cinzentos, Ancestrais e Poderosos,
Que conheceis os caminhos entre os mundos.
Caminhai pela Estrada do Oeste, a senda do fim e do recomeço, e aceitai este chamado como oferenda viva.
Sede bem-vindos a este Rito, nesta noite em que o Sol já cruzou o limiar, e o Véu se torna tênue entre os mundos.
Permanecei, testemunhai, e, se for de vossa vontade, partilhai vossa presença, vossa memória e vosso poder.
Assim é chamado. Assim é aberto o Caminho.

Fontes

COCHRANE, Robert. Cartas e ensinamentos da bruxaria tradicional
ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano
WILBY, Emma. Cunning Folk and Familiar Spirits
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon
GARY, Gemma. Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways
JACKSON, Nigel. Masks of Misrule
CULPEPER, Nicholas. Complete Herbal
LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem

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