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Guldize; O Mistério do Deus que Morre

  • Foto do escritor: Cain Mireen
    Cain Mireen
  • 1 de fev.
  • 6 min de leitura

A Véspera de Fevereiro é conhecida como Lughnasadh, na língua irlandesa antiga, cujo significado é “Assembleia de Lugh”, o deus luminoso irlandês. Em irlandês moderno, a festividade é chamada Lúnasa, nome do mês de agosto. Na língua galesa, é conhecida como Calan Awst, “Calendas de Agosto”; em bretão, Gouel Eost, “Festa de Agosto”; em inglês, Lammas, “Missa do Pão”, feriado cristão ligado à bênção do primeiro pão da colheita; e, na Cornualha, é chamada Guldize, “Festa da Colheita”.

Todas essas celebrações possuem suas particularidades e formas próprias de culto, mas são unidas por um mesmo eixo central: a comemoração da colheita.


Esta é a Primeira Noite Espiritual do meu ano ritual. Ela funciona como a abertura do meu ciclo sagrado, marcando simbolicamente a colheita na estrada anual que percorro. Sendo a primeira véspera ritual, a Véspera de Fevereiro que também chamo de Guldize, por seguir a Faith Cornish, a “Fé da Cornualha” alinha meu espírito com as forças da natureza, da Serpente e do Velho, garantindo a colheita espiritual e material ao longo de todo o ano.

Guldize marca a colheita, o sacrificio e o luto.
Guldize marca a colheita, o sacrificio e o luto.

Os mistérios aqui contidos falam do Corpo Divino oferecido como alimento ao seu povo. O Deus Castanho Espírito dos Grãos atinge o auge de sua força antes de sua morte ritual. Por meio de ritos que marcam sua morte, ele é transformado em pão, bolo e bebida, compondo a Refeição Vermelha, a partilha entre vivos e mortos e o sustento espiritual e material durante o ano. O ato sacrificial da colheita dos grãos o ceifar, debulhar e moer o espírito do campo é, em minha liturgia, a divinização de Caim, o Primogênito da Arte, o primeiro a lavrar a terra. Ele é o Espírito dos Grãos do campo e, ao final do ciclo de Vida–Morte–Renascimento, ressuscita como pão e cerveja.


“O auge da colheita é marcado pelo corte cerimonial do último trigo ainda de pé, que se torna o ‘Neck’ (o Pescoço) e é levado de volta à casa da fazenda, onde o portador do Neck é frequentemente banhado com um jarro de água pela senhora da casa, simbolizando as chuvas necessárias para nutrir a próxima colheita.”— Gemma Gary


A maré da colheita marca não apenas o ato de colher, mas todo o processo sagrado e misterioso daquilo que deve morrer para renascer. Em Golowan, o Sol atingiu o ápice de seu poder, luz e força; agora, na Véspera de Fevereiro, inicia-se o tempo da Primeira Colheita, quando recolhemos as forças materiais e espirituais acumuladas desde o solstício de verão.

A crença no espírito que habita o grão é antiquíssima: é a divindade que sustenta o plantio e o crescimento, e que também será colhida. O grão é o próprio corpo do Deus Castanho. O espírito do grão foge à medida que o campo é ceifado e se refugia no último feixe, chamado de “Neck” na Cornualha, tornando-se o corpo do espírito da terra. Esse espírito-grão é guardado no último feixe, moldado com características humanas, como uma boneca de milho, simbolizando o Deus ou a Deusa da Terra  pois o espírito é andrógino. Muitos praticantes, alinhados às marés sazonais, reconhecem nele a Deusa do Milho, o Rei do Grão, o Primeiro Agricultor, John Barleycorn, a Mãe da Fertilidade. Esse espírito toca profundamente o coração e a alma do praticante da Velha Fé.


O rito de morte e ressurreição é um dos temas centrais do Anel da Bruxa. Quando a bruxa se torna una com a Maré Sazonal, ela caminha sobre a Espinha da Serpente Vermelha e, conforme as marés se aproximam, seu fluxo espiritual se transforma, alimentando sua fé, sua magia e sua astúcia naquilo que é chamado de Roda Anual Espiritual. O último feixe do campo é o corpo do Velho, o Espírito do Campo. Ele não é cortado como os outros: é tratado com reverência, pois nele reside o espírito do Deus Castanho, o Espírito dos Grãos. Trançado em forma humana, ele é guardado na casa para garantir prosperidade, mesa farta e boa sorte durante o ano, até o próximo ciclo da colheita.


Simbolicamente, cortar o último feixe é matar o Velho; guardá-lo em casa é preservar sua essência mística e espiritual; queimá-lo ao final do ciclo é libertar seu espírito. Aqui se revela o mistério do renascimento.

O Espirito do Campo.
O Espirito do Campo.

O Deus Castanho é o sacrifício sagrado que alimenta seu povo. O grão, seu corpo, é entregue à alquimia material da transformação em pão, sustento da comunidade. Guldize fala da morte sacrificial: o próprio Espírito do Grão morre para alimentar. O Velho governa a vida por meio da morte.


O grão assemelha-se ao próprio iniciado na Estrada da Serpente. Quando alcança a iluminação gnóstica, ele compreende que todo o processo da Roda do Ano Ritual fala de si mesmo, da terra e do Fogo Divino. Sob a superfície da Fé Sábia, esconde-se um mistério profundo: o grão é o grande símbolo iniciático da bruxa. A semente é enterrada na terra como o iniciado que desce às sombras; apodrece como o ego que precisa morrer; germina como o espírito que desperta; cresce como a consciência que se expande; é cortada como o Deus Castanho que se sacrifica; transforma-se em pão como o corpo que se torna vida para outros.


Na linguagem simbólica da Fé, a colheita é o drama do cosmos: o eterno ciclo de morte e renascimento que sustenta o mundo. Nada vive sem que algo morra.


O mundo material é visto como um campo onde o espírito está aprisionado. O grão representa a centelha divina que desce à matéria para ser transformada. Quando o pão é comido, o grão retorna ao homem, e o homem torna-se o Templo Vivo onde a vida da terra continua. Assim, o Deus Castanho não é um Deus distante, mas um Deus que se oferece: nasce como planta, morre na colheita, transforma-se em alimento e renasce na semente preservada. Este é o mistério do Deus Sacrificado, presente em todas as tradições espirituais da Velha Fé. A colheita é, portanto, a Eucaristia da Bruxa: ela come o próprio Deus para continuar existindo.


A alquimia é parte da Arte dos Sábios. O rito de Guldize, mesmo sem dizer explicitamente, é um rito de morte e ressurreição, seguindo uma sequência esotérico-alquímica: a ceifa simboliza a morte do Deus; o debulhar é o desmembramento do corpo divino; a moagem é a dissolução; a fermentação é a transmutação; e, ao final, a ressurreição manifesta-se no pão e na cerveja. Na alquimia clássica, podemos associar:Nigredo a morte do grão cortado;Albedo a purificação do grão transformado em farinha;Rubedo o renascimento no pão e na bebida.

Processo Alquimico
Processo Alquimico

Quando nos alinhamos ao eixo Terra–Fé Sábia–Iluminação, alcançamos aquilo que chamo de Fogo de Sophia, o Fogo da Sabedoria.


“O grão é a centelha divina que paira no mundo material. Na maré sazonal da colheita, o espírito sofre a queda para ser transformado em divindade através do processo alquímico do espírito, na forma de pão; ao ser consumido pelo homem, ele o transforma em Templo Vivo do Deus. O homem come Deus para tornar-se Deus.”— Cain Mireen


“O sacrifício é antigo na humanidade. Em religiões pagãs e bíblicas, ele aparece como forma de apaziguar as forças da natureza. No cristianismo moderno, o sacrifício continua simbolicamente na missa, onde o pão e o vinho representam o corpo e o sangue do salvador. Ritos semelhantes existiam nos Mistérios de Mitra e Eleusis.”— Michael Howard, Liber Nox


A fé em um Deus que morre para alimentar seu povo é uma das crenças mais antigas. Na Nova Fé, ela se manifesta nos mistérios da morte, crucificação e ressurreição de Cristo, e no mito da Santa Ceia, em que Cristo divide o pão e o vinho como símbolos de sua carne e de seu sangue. Quando participamos da missa e do momento da Eucaristia, podemos reconhecer o eco do mito do Rei Sacrificial na consagração do pão e do vinho. A Eucaristia é a sobrevivência do antigo rito do Deus do Grão. O praticante da Dupla Fé vive, assim, o mistério da morte e da ressurreição tanto na Velha quanto na Nova Fé.

Folhas do Livro de Horas de Charles de Martigny - Missa de São Gregório
Folhas do Livro de Horas de Charles de Martigny - Missa de São Gregório

O homem vive porque Deus se deixa comer.— Cain Mireen

 

Fonte:

James George Frazer – The Golden Bough

Margaret Murray – The Witch-Cult in Western Europe

Christina Hole – British Folk Customs

Andrew Chumbley – The Dragon Book of Essex

Cartas de Robert Cochrane

Mircea Eliade – The Sacred and the Profane

Jones, Evan John & Valiente, Doreen. The Roebuck in the Thicket. Capall Bann, 2001

Hutton, Ronald. The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain. Oxford University Press, 1996.

Hutton, Ronald. The Pagan Religions of the Ancient British Isles. Blackwell, 1991.

Howard, Michael. Children of Cain: A Study of Modern Traditional Witchcraft. Three Hands Press, 2011.

Howard, Michael. Liber Nox.Valiente, Doreen. Witchcraft for Tomorrow. Robert Hale, 1978.

Valiente, Doreen. The Rebirth of Witchcraft. Robert Hale, 1989.

Gary, Gemma. Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways. Troy Books, 2008.

Gary, Gemma. The Devil’s Dozen: Thirteen Craft Rites of the Old One. Troy Books, 2012.

Gary, Gemma. The Black Toad: West Country Witchcraft and Magic. Troy Books, 2018.

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