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Inspiração para a minha Bruxaria.

  • Foto do escritor: Cain Mireen
    Cain Mireen
  • 8 de fev.
  • 7 min de leitura
O que é a minha bruxaria de inspiração britânica.

Minha prática de bruxaria se constrói a partir de um diálogo consciente entre história, folclore e experiência espiritual.Ela não surge como uma invenção isolada, mas como uma reconstrução pessoal inspirada nas tradições mágicas e religiosas das Ilhas Britânicas particularmente da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales articuladas com uma reflexão contemporânea sobre o significado da bruxaria num olhar regional desses locais.


Quando falo da minha bruxaria, não falo de uma tradição fechada nem de uma linhagem antiga que reivindico como herança literal e muito menos de uma via iniciatica tradicionalista. Falo de um caminho que construí a partir do encontro entre a magia popular da Inglaterra, da Escócia e do País de Gales as antigas terras da Ilha Britânica, onde a bruxaria sempre foi mais do que mito: foi prática viva, cotidiana e espiritual; Em união com a minha visão pessoal, botando o conhecimento em prática e tornando aquilo que é magia popular britânica em algo vivo.


Minha bruxaria nasce da escuta dessas tradições, não da tentativa de copiá-las. Ela é inspirada na magia do povo, nos encantos verbais, na relação com a terra e nos espíritos que habitam os limites entre o visível e o invisível. É uma bruxaria que busca compreender o espírito das práticas antigas, e não apenas repetir suas formas externas.

Mapa das Terras Britânicas - Pinterest
Mapa das Terras Britânicas - Pinterest

Vejo na Inglaterra a força da feitiçaria prática dos cunning folk ou o Povo Astuto, que curavam, protegiam e desfaziam feitiços com palavras simples, objetos cotidianos e orações encantadas. Vejo na Escócia a dimensão mais profunda e liminar da bruxaria, onde o espírito mestre, o voo espiritual, a metamorfose e o contato com as fadas revelam uma cosmologia mais intensa. Vejo no País de Gales a magia poética, ligada ao Outro Mundo, à palavra bardica e aos espíritos da terra. Minha prática nasce do diálogo entre essas três correntes.


A base da minha bruxaria encontra-se na tradição da magia popular britânica, praticada historicamente pelos chamados cunning folk, curandeiros, feiticeiros e mediadores espirituais presentes sobretudo na Inglaterra entre os séculos XVI e XIX.Esses praticantes não constituíam uma religião organizada, mas um conjunto de saberes pragmáticos voltados à cura, proteção, adivinhação e resolução de conflitos espirituais.


Estudos como os de Emma Wilby no livro Cunning Folk and Familiar Spirits e Ronald Hutton emThe Triumph of the Moon demonstram que a bruxaria tradicional britânica se desenvolveu mais como uma prática social e espiritual do que como um sistema doutrinário.Essa perspectiva influencia diretamente minha prática: a bruxaria não é apenas ritual simbólico, mas uma tecnologia espiritual aplicada à vida cotidiana.


A tradição escocesa ocupa um papel central na minha compreensão da bruxaria.Os relatos de Isobel Gowdie, registrados nos processos judiciais do século XVII, constituem um dos testemunhos mais ricos da feitiçaria popular europeia. As análises de Emma Wilby em The Visions of Isobel Gowdie sugerem que os encantamentos de Isobel não devem ser interpretados apenas como fantasia ou heresia, mas como expressões de uma cosmologia espiritual na qual a bruxa interage com fadas, espíritos e forças naturais.

Altar de Allantide - Noite Espiritual da Cornualha
Altar de Allantide - Noite Espiritual da Cornualha

Essa dimensão visionária da bruxaria escocesa caracterizada pela travessia entre mundos, pelo voo espiritual e pela personificação das forças da natureza influencia profundamente minha prática, que compreende a bruxaria como experiência liminar entre o humano e o invisível.Além disso, o folclore escocês sistematizado por F. Marian McNeill em The Silver Bough revela a persistência de ritos sazonais, crenças em seres sobrenaturais e práticas mágicas ligadas ao ciclo agrícola, elementos que integro à minha compreensão do tempo ritual e da sacralidade da paisagem.


Do País de Gales, minha bruxaria incorpora a dimensão mítica e simbólica da tradição celta.Textos como o Mabinogion evidenciam uma cosmologia na qual o sagrado se manifesta por meio da poesia, do caldeirão, da transformação e da jornada iniciática. Autores contemporâneos, como Kristoffer Hughes em From the Cauldron Born, demonstram que a espiritualidade galesa não se limita a uma reconstrução histórica, mas constitui um horizonte simbólico capaz de inspirar práticas mágicas modernas.


Assim, a influência galesa em minha bruxaria se manifesta menos como reprodução ritual e mais como estrutura simbólica: a bruxaria como narrativa, metamorfose e conhecimento poético. Outro eixo fundamental da minha prática é a tradição anglo-saxã, anterior à consolidação do cristianismo na Inglaterra. Estudos como Aspects of Anglo-Saxon Magic, de Bill Griffiths, revelam que a magia anglo-saxã combinava práticas rituais, encantamentos, crenças em espíritos e uma cosmologia centrada em deuses como Woden. Woden, em particular, representa para mim o arquétipo do mago, do viajante e do buscador de sabedoria. Sua figura simboliza a dimensão iniciática da bruxaria: o conhecimento obtido por meio do sacrifício, da errância e da contemplação do invisível. Nesse sentido, minha bruxaria não é apenas uma herança secreta ou popular, integrando elementos germânicos e britânicos em uma síntese pessoal.

Deus Woden, o Andarilho.
Deus Woden, o Andarilho.

Por isso, quando digo que minha bruxaria é de inspiração britânica, não estou afirmando uma tradição única, mas reconhecendo um território espiritual comum. Reconheço que a magia popular britânica é um mosaico de práticas diversas, unidas por uma mesma relação com a terra, com o sagrado e com os Espíritos do Caminho. Minha bruxaria se move dentro desse mosaico, buscando coerência, profundidade e verdade interior apenas diz respeito a minha pessoa.


Entendo que tradição não é algo fixo no passado, mas algo vivo, que se transforma. Minha bruxaria não pretende ser uma reconstrução pura do que foi, mas uma continuidade consciente. Honro o passado, mas caminho no presente. Uso o que é fiel ao espírito das tradições antigas e, ao mesmo tempo, permito que minha experiência pessoal dê forma ao meu caminho.


Acredito que a bruxaria é, antes de tudo, uma experiência liminar: um caminhar entre mundos, entre a terra e o espírito, entre o visível e o invisível. Minha prática se enraíza na terra, nos ciclos naturais, nos espíritos e na palavra encantada, mas também se abre ao mistério. Não busco apenas técnicas mágicas, mas pertencimento, memória e sentido.


Assim, minha bruxaria de inspiração britânica é um caminho de escuta, de enraizamento e de travessia. Ela nasce das Ilhas Britânicas, mas vive no meu presente. Não é uma tradição herdada, mas uma tradição que construo passo a passo na relação viva com a terra, com os espíritos e com o silêncio que existe entre as palavras, sendo inspirado por uma Terra Ancestral.


Vou deixar abaixo registrado algumas obras de estudos para quem deseja também ser inspirado para construir a sua própria bruxaria e Arte Sábia, são livros essenciais de magia, bruxaria e folclore focado na Inglaterra, Escócia e País de Gales.


Ronald Hutton – The Pagan Religions of the Ancient British Isles

Ronald Hutton – The Triumph of the Moon

Ralph Merrifield – The Archaeology of Ritual and Magic

Emma Wilby – Cunning Folk and Familiar Spirits

Tabitha Stanmore – Cunning Folk: Life in the Era of Practical Magic

Gemma Gary – Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways

Gemma Gary – The Black Toad

Nigel Pearson – The Devil’s Plantation

Val Thomas – Of Chalk & Flint

Graham King – The British Book of Spells and Charms

Lizanne Henderson – Witchcraft and Folk Belief in the Age of Enlightenment

Lizanne Henderson & Edward Cowan – Scottish Fairy Belief

Emma Wilby – The Visions of Isobel Gowdie

F. Marian McNeill – The Silver Bough

Evan-Wentz – The Fairy-Faith in Celtic Countries

Wirt Sikes – British Goblins

Bill Griffiths – Aspects of Anglo-Saxon Magic

Lâmpada Encapuzada
Lâmpada Encapuzada

Para surpresa de alguns e confirmação de outros que já intuíram a direção do meu caminho, minha maior inspiração encontra-se na linguagem, na Arte Mágica e nos conhecimentos transmitidos por meio de escritos e ensinamentos sobre a natureza da bruxaria, da feitiçaria e do contato com o oculto. Entre essas influências, destaca-se de forma particular a obra e a trajetória de Gemma Gary, cuja visão e prática exercem profunda ressonância em minha Arte.


Gemma Gary, bruxa da Cornualha, no oeste da Inglaterra, é uma das vozes mais significativas da bruxaria tradicional contemporânea. Fundadora e editora da Troy Books, uma casa editorial dedicada à preservação e divulgação da magia tradicional e da feitiçaria popular da Cornualha, ela representa um elo vivo entre o folclore local, a prática espiritual e a reflexão contemporânea sobre o Caminho do Antigo Artesanato.


Sua dedicação prolongada à bruxaria tradicional não constitui apenas uma herança cultural, mas uma via espiritual profundamente enraizada na experiência, no estudo e na vivência do oculto. É esse percurso que inspira minha própria jornada: não como imitação literal de seus passos, mas como afinidade espiritual. Se não caminho com os mesmos pés, é, contudo, pelas mesmas paisagens simbólicas que meu espírito se move — explorando, à sua maneira, as vias da espiritualidade, da magia e do conhecimento oculto.

Gemma Gary , minha inspiração.
Gemma Gary , minha inspiração.

Assim, minha bruxaria se configura como uma síntese viva entre tradição e interpretação, entre herança cultural e experiência interior. Inspirada pelas paisagens espirituais das Ilhas Britânicas pela magia popular inglesa, pela feitiçaria escocesa, pelo imaginário celta e pela herança anglo-saxã e profundamente influenciada pela obra de Gemma Gary e pela tradição da Cornualha, minha prática não se limita à reprodução do passado, mas se orienta como um caminho de continuidade simbólica. Ao reconhecer nessas tradições não apenas um repertório de ritos e narrativas, mas uma linguagem espiritual, compreendo minha Arte como um percurso de busca, estudo e transformação. Se a tradição me oferece as raízes, é na experiência pessoal que ela encontra voz; e é nesse espaço entre o antigo e o presente que minha bruxaria se afirma como um caminho consciente de espiritualidade, magia e conhecimento do oculto.


Ser um praticante tradicional moderno não significa que você alega sucessão ininterrupta aos praticantes históricos que habitaram um tempo e um mundo muito diferentes do nosso, é ter uma paixão pela herança folclórica do passado, para se basear e para se inspirar e fazer uso do útil no mundo em que habitamos hoje.
Gemma Gary

BENÇÃOS DO VELHO DA ARTE SÁBIA
CAIN MIREEN

1 comentário


carmo Nobre
carmo Nobre
06 de mar.

Seus textos são muito inspiradores e potentes, parabéns pelo trabalho e muito axé pra você!!

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