Nomina Artis

Os Nomes da Arte: da acusação à insígnia nas Ilhas Britânicas e no Brasil
Estudo histórico-etimológico sobre os termos que designam praticantes de bruxaria, feitiçaria e magia popular, redigido em registro acadêmico e em linguagem inspirada na tradição da Bruxaria Tradicional britânica contemporânea.
Nota de método: o linguajar sabático adotado aqui é um exercício de estilo, uma homenagem ao vocabulário de autores como Andrew D. Chumbley e Michael Howard. O texto não pertence ao Cultus Sabbati nem fala em nome dele. As afirmações históricas seguem a historiografia e os dicionários etimológicos citados; as afirmações das tradições contemporâneas são tratadas como reivindicações internas.
Proêmio e Resumo
Todo ofício começa por um nome, e todo nome é uma porta que alguém abriu de fora ou de dentro. Este estudo percorre as palavras com que as sociedades lusófona e britânica nomearam aqueles que conhecem e operam o que permanece oculto aos olhos da maioria: bruxa, feiticeiro, curandeiro, benzedor, mandingueiro, pajé; witch, wizard, warlock, cunning folk, dyn hysbys, pellar.
A tese é simples e se desdobra em três movimentos. Primeiro, esses nomes não são traduções uns dos outros, pois nasceram de línguas, religiões e tribunais diferentes. Segundo, durante séculos foram sobretudo nomes de acusação, impostos de fora por inquisidores, juízes, clérigos e vizinhos. Terceiro, no século XX alguns foram tomados de volta e fundidos em insígnia, como se a máscara posta pelo acusador fosse relavrada e usada pelo próprio rosto. Conclui-se que o passado fornece a palavra, e o praticante contemporâneo lhe dá um significado novo, sem herdar por isso, automaticamente, a prática antiga.
Palavras-chave: bruxaria; feitiçaria; cunning folk; etimologia; Inquisição; Cultus Sabbati; Sabbatic Craft; Brasil; Reino Unido; Gales; Cornualha.
I. Do Nome e da Máscara: Problema e Método
Nomen est clavis. O nome é chave: abre ou tranca. A pergunta que guia o estudo é quem deu o nome, e com que mão. Distinguem-se aqui quatro naturezas de nome:
1. nomes de ato, que dizem o que se faz (feiticeiro, o que opera o feito);
2. nomes de saber, que dizem o que se sabe (wise woman, cunning man, dyn hysbys);
3. nomes de acusação, que dizem o que a sociedade teme (witch, bruxa, e, por inversão, warlock);
4. nomes de insígnia, tomados pelo próprio praticante (the Craft, Sabbatic Craft, Arte).
O método é filológico e comparado. Apoia-se em dicionários etimológicos, em estudos históricos sobre a magia popular britânica (Davies, 2003; Suggett, 2008; Hutton, 1999 e 2017; Thomas, 1971), em pesquisas brasileiras sobre a Inquisição e o calundu (Laura de Mello e Souza; Luiz Mott), em bases documentais como o Survey of Scottish Witchcraft e em textos de praticantes (Chumbley, Howard, Gary), estes últimos tratados como fontes da tradição, e não como prova da história antiga. Um cuidado preliminar governa tudo: o Reino Unido não é um bloco. Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda do Norte tiveram línguas, leis e memórias distintas, e o mesmo vale para as matrizes do Brasil.
II. A Via Lusófona: Bruxa, Feiticeiro e o Ofício Sem Nome Único
1. Bruxa e feitiço: duas raízes
Bruxa tem origem incerta. Os dicionários a relacionam a uma base pré-romana que teria chegado ao português pelo castelhano bruja (Infopédia, s.v. bruxa). Outras propostas, como uma raiz céltica ligada ao feitiço, circulam em fontes menos rigorosas e devem ser lidas como hipótese. Quanto ao sentido, a bruxa é, no dicionário, a mulher a quem se atribuem poderes sobrenaturais de origem demoníaca: prever o futuro, causar malefícios, produzir encantamentos. Feitiço vem do latim facticius, “feito, produzido por arte” (conhecimento geral de filologia, não reverificado neste estudo). A diferença é de ênfase: bruxa → bruxaria → bruxo nomeia primeiro a pessoa; feitiço → feitiçaria → feiticeiro nomeia primeiro a coisa feita. Na América portuguesa, contudo, as duas famílias se confundiram, e o mesmo homem ou mulher podia curar, adivinhar, proteger, desfazer e também ferir.

2. O Santo Ofício e a Primeira Visitação (1591–1595)
A colônia não teve tribunal inquisitorial fixo; o Santo Ofício agia por visitações. A primeira correu entre 1591 e 1595, dirigida à Bahia e a Pernambuco pelo visitador Heitor Furtado de Mendonça, que desembarcou na Bahia em 9 de junho de 1591 e instalou os trabalhos em 28 de julho do mesmo ano, seguindo depois para Pernambuco, Itamaracá e Paraíba. As confissões e denunciações registram benzeduras, feitiços amorosos e acusações de pacto demoníaco, muitas delas contra mulheres. Nesse mesmo tempo vive a Santidade de Jaguaripe, movimento indígena de caráter híbrido, com elementos católicos, que os senhores do Recôncavo chamaram de heresia e que foi protegido por Fernão Cabral de Taíde. A autoridade nomeou “feitiçaria” e “heresia” aquilo que tinha lógica própria.
3. O calundu e Luzia Pinta
Calundu nomeia, na colônia, rituais de cura, adivinhação e possessão de matriz africana. O caso mais conhecido é o de Luzia Pinta, nascida na África central, escravizada, depois liberta pela compra da própria alforria, e vivendo livre e proprietária em Sabará, Minas Gerais. Denunciada em 1739 como feiticeira, foi presa e enviada a Portugal em 1742, para ser julgada pela Inquisição de Lisboa (Mott; acervo da Torre do Tombo). A pesquisa recente trata o calundu como prática terapêutica afro-luso-americana. O que o inquisidor chamou de “feitiçaria” era um saber de ancestrais, espíritos e comunidade, traduzido à força para a demonologia europeia (Souza, 1986). Eis o ponto central: feiticeiro, no Brasil colonial, foi muitas vezes um nome posto de fora.
4. Os nomes do campo
Os registros coloniais abrigam muitos nomes, que não devem ser sobrepostos como sinônimos:
Termo: Sentido aproximado
benzedor(a) de benedicere, “dizer bem”; oração cristã popular
curandeiro(a) o que cura, sem religião específica
mezinheiro(a) remédios caseiros e plantas
mandingueiro(a) de mandinga; amuletos e proteção do corpo
calunduzeiro(a) rituais de cura e possessão, de matriz banto
pajé especialista ritual e curador, de matriz tupi
5. Da fogueira ao Código
Extinta a Inquisição, a repressão migrou para o direito penal. O Código Penal de 1890 criminalizava o espiritismo, a magia e seus sortilégios, assim como o uso de talismãs e cartomancias para inculcar curas ou fascinar a credulidade pública, e tratava o curandeirismo nos artigos 156 a 158. O Código Penal de 1940 abandonou a menção à magia, mas conservou o curandeirismo (art. 284). Os nomes curandeiro, feiticeiro e macumbeiro carregaram, por isso, carga de estigma e, em muitos usos, de racismo religioso.
III. A Via Britânica: Witch, Wizard, Warlock e o Povo Astuto
1. Witch, wicca, witchcraft: a Arte como ofício
O inglês witch descende do inglês antigo wicce (feminino) e wicca (masculino), este ligado ao verbo wiccian, “praticar bruxaria” (Online Etymology Dictionary, s.v. witch). A origem última é incerta; o OED a registra como tal, e Watkins propôs uma ligação com um termo germânico para “necromante”. Witchcraft corresponde a wiccecræft, em que cræft indica habilidade e perícia; daí a ideia, tão cara ao vocabulário sabático, da Arte como ofício aprendido (interpretação pela estrutura da palavra). Importa separar duas coisas: o wicca do inglês antigo não é a religião Wicca. Esta é do século XX e se difundiu a partir de Gerald Gardner, que publicou Witchcraft Today em 1954 apoiado na hipótese do “culto das bruxas” de Margaret Murray, hoje desacreditada pela historiografia. Historiadores como Cohn, Ginzburg e Thomas mostraram que as perseguições tiveram causas sociais, econômicas e religiosas.
2. Wizard: o sábio
Wizard aparece no início do século XV como wisard, “filósofo, sábio”, de wys (“sábio”) mais o sufixo -ard; o sentido de praticante de poderes mágicos firma-se por volta de 1550 (Online Etymology Dictionary, s.v. wizard).
3. Warlock: o quebrador de juramento
A etimologia mais aceita remonta ao inglês antigo wǣrloga, “quebrador de juramento, enganador”, aplicado ao Diabo por volta do ano 1000. O sentido de “equivalente masculino de witch” vem do escocês, a partir da década de 1560. A hipótese nórdica (“chamador de espíritos”) é considerada implausível pelo OED. A palavra é prova de como a linguagem da magia foi moldada pela linguagem do pacto: o que a sociedade cristã interpretava como aliança com o Diabo pedia, como nome, aquele que rompeu a aliança.
4. Cunning folk: aqueles que sabiam
Os cunning folk foram praticantes profissionais ou semiprofissionais de magia atuantes da Idade Média ao início do século XX, conhecidos como cunning men e cunning women, wise men e wise women, charmers, conjurers, e, em regiões, dyn hysbys (Gales) e pellars (Cornualha). Curavam pessoas e animais, localizavam objetos e ladrões, desfaziam maldições e faziam encantamentos amorosos (Davies, 2003). Cunning deriva de cunnan, “saber”; o sentido de astúcia é tardio. Davies desmonta a imagem romântica de pagãos sobreviventes: muitos usavam orações cristãs, nomes poderosos e livros, embora poucos soubessem lê-los. A expressão white witch pertence mais ao vocabulário dos folcloristas do que ao dos próprios praticantes (Hutton).
5. Gales
O galês nomeia o astuto de modo próprio: dyn hysbys (plural dynion hysbys), “o homem que sabe”, que contrariava a bruxaria, curava, consultava astrologia, lia a sorte e recuperava bens perdidos (Suggett, 2008). A bruxa é gwrach, presente em topônimos ao lado do bwbach. Os processos foram poucos para a Europa: cerca de trinta e sete nos séculos XVI e XVII, em sua maioria absolvições, com cinco execuções, em tribunais de Great Sessions e não eclesiásticos; entre os condenados está Margaret ferch Richard, executada em Beaumaris em 1655. Ressalva documental. O primeiro enforcamento por bruxaria no País é atribuído a Gwen ferch Ellis. Uma fonte oficial do patrimônio galês a data de 1584, enquanto a apresentação de uma edição de Suggett fala em 1594. A data deve ser conferida diretamente em Suggett antes de qualquer citação.
Suggett mostra ainda que a crença não murchou com o fim da lei: transformou-se em maldições feitas em poços, e as figuras de cera, como a conservada no Museu Nacional de Gales, testemunham o ofício.
6. Cornualha
Na Cornualha, os astutos eram os pellars. A etimologia é disputada: alguns a ligam a expellers (“os que expulsam” espíritos), enquanto Davies a descreve como palavra do córnico antigo. Sua figura mais célebre é Tamsin Blight, nascida em 1798 em Gwennap, perto de Redruth, que se casou em 1835 com James Thomas, “Jimmy, o Mago”. William Bottrell registrou em 1870 que gentes das Ilhas Scilly viajavam em grupo para consultar as “bruxas brancas” da Cornualha. Quase nada se sabe de sua juventude, e muito do que chegou vem de William Paynter (1901–1976), de modo que os feitos, e talvez a figura, tocam a lenda. O Museu de Bruxaria e Magia de Boscastle nasceu da obra de Cecil Williamson, que o fundou em 1951 na Ilha de Man e o abriu em Boscastle em 1960; vendido a Graham King em 1996, tomou o nome atual em 2015.

7. Escócia
A Escócia viveu perseguição intensa. O Survey of Scottish Witchcraft (Universidade de Edimburgo) registra 3.837 acusados, cerca de 84% mulheres, com indícios de que aproximadamente dois terços foram executados; a lei de 1563 vigorou até 1736, os picos se concentram em 1590–91, 1597, 1628–30, 1649 e 1661–62, e a tortura foi usada até 1704. Em 1590, os julgamentos de North Berwick envolveram o rei Jaime VI, que acreditou que bruxas haviam provocado tempestades contra o navio de sua noiva; seguiram-se o panfleto Newes from Scotland (1591) e a Daemonologie (1597). Os acusados eram, em geral, pessoas marginais ou que contrariavam a autoridade, e a cura popular andava colada à acusação, porque a mesma magia podia sarar ou ferir. É nessa terra que o warlock aprende a ser “bruxo homem”.

8. Irlanda do Norte
Em 1711, as mulheres de Islandmagee foram julgadas em Carrickfergus por ataques em forma espectral à jovem Mary Dunbar. Foram condenadas, sob a lei irlandesa de 1586, a um ano de prisão e a quatro exposições no pelourinho; em setembro, também William Sellor foi condenado. A lei irlandesa foi revogada em 1821. Outras categorias gaélicas (bean feasa, fairy doctor) não foram reverificadas neste estudo.
9. As leis
A Inglaterra legislou contra a bruxaria na década de 1540, em 1562–63 e em 1604; a Escócia, em 1563. A Witchcraft Act de 1735, que valeu para toda a Grã-Bretanha, revogou a lei escocesa de 1563 e a inglesa de 1604 e passou a punir quem fingisse praticar, o que refletia a descrença iluminista na existência da bruxaria. Sob essa lei foi condenada, em 1944, a médium Helen Duncan. A Fraudulent Mediums Act, sancionada em 22 de junho de 1951, revogou a lei de 1735, não se estendeu à Irlanda do Norte e foi, ela própria, revogada em 26 de maio de 2008. As datas dos primeiros atos ingleses variam entre as fontes por causa da contagem por anos de reinado; é prudente falar em “década de 1540” e “década de 1560”.
IV. Os Herdeiros: a Arte Tomada de Volta
1. O que muda no século XX
Com a revogação de 1951 e a obra de Gardner, termos que foram acusação tornam-se identidade. Num outro ramo, a Bruxaria Tradicional (Traditional Witchcraft, Old Craft, Cunning Arte) afirma continuar, em formas modernas, o ofício dos cunning folk. Aqui o vocabulário que vimos reaparece como insígnia.
2. Andrew D. Chumbley e o Cultus Sabbati
Andrew D. Chumbley (1967–2004), escritor, poeta, artista e Magister do Cultus Sabbati, publicou pela Xoanon, sua editora privada, Azoëtia (1992), Qutub (1995) e One: The Grimoire of the Golden Toad (escrito em 1999 e publicado em 2000). Chamou de Sabbatic Craft à tradição em que foi iniciado, na qual elementos do folclore de bruxas e do mito do Sabá eram empregados na cunning-craft, e afirmou que ela se fundava em duas linhagens anteriores às formas revivalistas “nominalizadas como Wicca”. A obra Azoëtia é tida como o texto fundador dessa tradição, e o texto do próprio Cultus a situa entre a magia popular rural britânica e a magia cerimonial erudita, usando o mito do Sabá como cifra. Chumbley morreu no dia em que completava 37 anos; Daniel Schulke o sucedeu. A Cornualha ocupa um lugar particular em sua última fase: nos primeiros anos 2000 visitou a região, e os ritos de paisagem chamados Cucullati workings exprimem uma visão pan-britânica da bruxaria (Patterson e Howard, Universidade de Falmouth).
3. Michael Howard e The Cauldron
Michael Howard (1948–2015) editou por trinta e nove anos a revista The Cauldron (1976–2015, 156 números), onde publicaram, entre outros, Chumbley, Hutton, Robert Cochrane, Evan John Jones e Nigel Pennick. Entrou no Cultus Sabbati em 1999, a convite de Chumbley, e dedicou à Bruxaria Tradicional a última fase de sua vida mágica. Escreveu Pillars of Tubal Cain, The Book of Fallen Angels e Children of Cain (2011), e, para a Three Hands Press, Welsh Witches and Wizards (2009), West Country Witches (2010) e Scottish Witches and Warlocks (2013), títulos que percorrem exatamente Gales, a Cornualha e a Escócia, os territórios deste estudo. Morreu em setembro de 2015, em Devon.
4. Gemma Gary e a Cornualha
Gemma Gary é praticante e autora de Bruxaria Tradicional ligada à Cornualha. Em Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways (1ª ed. 2008), explora abordagens modernas das práticas de bruxas, charmers e conjurers dos séculos XVIII e XIX: a crença nas fadas, o mundo dos mortos, o Bucca, os lugares de poder. Segundo o resumo da edição revista, a autora declara que não há na Cornualha uma tradição de bruxas organizada e “fixa” (a conferir no livro). Em The Black Toad: West Country Witchcraft and Magic (1ª ed. 2011), com prefácio de Michael Howard, descreve as maneiras do Old Craft e do Cunning Arte: a relação com os espíritos da terra e as fadas, o saber de plantas e animais e o uso mágico dos Salmos para curar ou amaldiçoar. A recomendação do livro invoca Cecil Williamson, para quem a magia popular “ainda existe hoje”, fechando o círculo com Boscastle.

5. Declaração e prova
O historiador separa o que o praticante declara do que o arquivo comprova. As linhagens afirmadas por essas ordens são reivindicações da tradição, e a historiografia as lê ao lado de Davies, que desmonta a figura dos cunning folk como pagãos sobreviventes, e de Hutton, que historiza o próprio Renascimento da bruxaria moderna. Isso não diminui a Arte, apenas a situa: ela é um ofício vivo, com uma história e uma tradição reivindicada, que convém não confundir.
V. Quadro Comparativo (aproximação funcional)
Mundo lusófono | Mundo britânico | Aproximação / significado |
Bruxo / Bruxa | Witch (Inglaterra); Gwrach (Gales) | Pessoa ligada à bruxaria, aos poderes ocultos e às práticas tradicionais. |
Bruxaria | Witchcraft | Conjunto de práticas, conhecimentos, crenças e mistérios da Arte. |
Feiticeiro / Feiticeira | Sorcerer / Sorceress | Pessoa que realiza feitiços, encantamentos e operações mágicas. |
Mago / Maga | Wizard | Pessoa associada ao conhecimento mágico, à sabedoria oculta e às artes cerimoniais. |
Curandeiro / Curandeira | Healer; Cunning Folk (em parte) | Pessoa que trabalha com cura, ervas, remédios populares e práticas de restabelecimento. |
Benzedor / Benzedeira | Charmer; Wise Woman (em parte) | Pessoa que emprega orações, bênçãos, palavras de poder e encantamentos para proteção e cura. |
Mandingueiro / Calunduzeiro | Sem equivalente direto | Figuras vinculadas às tradições mágico-religiosas de matriz africana, com práticas e conhecimentos próprios. |
Pajé | Sem equivalente direto | Autoridade espiritual e ritual das tradições indígenas, com conhecimentos específicos de seu povo. |
— | Cunning Man / Cunning Woman | Especialistas populares britânicos em cura, adivinhação, proteção e remoção de feitiços. |
— | Dyn Hysbys (Gales) | Pessoa sábia ou conhecedora, associada às tradições populares galesas. |
— | Pellar (Cornualha) | Especialista tradicional em práticas de proteção, cura e neutralização de encantamentos. |
— | Warlock (Escócia) | Termo historicamente associado a um praticante de magia, embora seu significado varie conforme época e contexto. |
O quadro é só aproximação. Um pellar não é um mandingueiro, e uma benzedeira não é simplesmente uma cunning woman: cada palavra repousa em sua própria terra.
VI. Da Acusação à Insígnia: Considerações Finais
Os nomes percorridos mostram quatro gestos da linguagem diante do praticante: o ato (feiticeiro), o saber (wise woman, cunning, dyn hysbys), a condição (witch, bruxa) e a ruptura (warlock, o que quebrou o juramento). Durante séculos, a palavra pertenceu a quem acusava. No Brasil, o Santo Ofício e depois o Código Penal moldaram o vocabulário; nas Ilhas Britânicas, tribunais civis e, na Escócia, a kirk, e depois a descrença das Luzes, que converteu o feiticeiro em fraude. O movimento do século XX é o da máscara relavrada. Com a Wicca, de Gardner, e com a Bruxaria Tradicional, de Chumbley, Howard e Gary, o nome posto de fora é vestido de dentro. A palavra Arte guarda essa dupla fidelidade: o craft de witchcraft é ofício, o cunning é saber, o feitiço é a coisa feita. Cada tradição tem sua história, e vale mais respeitá-las do que fundi-las.
Para o praticante contemporâneo, a escolha do nome é, portanto, escolha de responsabilidade: quando o termo tem dono (mandingueiro, pajé, babalorixá, pellar, dyn hysbys), cabe conhecê-lo e, se for o caso, ser iniciado nele; quando é de uso amplo (bruxo, bruxa, praticante da Arte), cabe usá-lo com honestidade sobre a origem da prática. Usar um nome antigo não é herdar a prática antiga. O passado dá a palavra; ao praticante cabe dar-lhe sentido.
Ressalvas e Pontos a Conferir
• Data de execução de Gwen ferch Ellis (1584 ou 1594), em Suggett.
• Etimologia de pellar (córnico antigo ou “expulsor”).
• Etimologias galesas (dewin, dyn cyfrwys, swynwr), a de fetish a partir de feitiço, e categorias gaélicas (bean feasa): não reverificadas.
• Uso de bruxo para wizard na tradução brasileira de Harry Potter e a data de 1821 para o fim da Inquisição portuguesa: não reverificados.
• Dados biográficos de Gemma Gary além da bibliografia: escassos nas fontes consultadas.
• Números do Survey of Scottish Witchcraft são estimativas sujeitas a lacunas documentais.
Referências
CHUMBLEY, Andrew D. Azoëtia: A Grimoire of the Sabbatic Craft. Xoanon, 1992; ed. 2002. Ver também Qutub (1995) e One: The Grimoire of the Golden Toad (2000).
CULTUS SABBATI. Provenance, Dream and Magistry. Texto institucional (Xoanon).
DAVIES, Owen. Popular Magic: Cunning-folk in English History. Hambledon, 2003. Ver também Cunning-Folk in England and Wales (Universidade de Hertfordshire, repositório).
GARY, Gemma. Traditional Witchcraft: A Cornish Book of Ways. Troy Books, 2008 (rev. ed.). The Black Toad: West Country Witchcraft and Magic. 2011.
HOWARD, Michael. Children of Cain. Xoanon / Three Hands Press, 2011. Welsh Witches and Wizards (2009); West Country Witches (2010); Scottish Witches and Warlocks (2013). Three Hands Press.
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon. Oxford, 1999. The Witch: A History of Fear. Yale, 2017.
INFOPÉDIA. Verbete bruxa. Porto Editora.
MOTT, Luiz. Estudos sobre calundus e Inquisição no Brasil; casos de Luzia Pinta (acervo Torre do Tombo).
ONLINE ETYMOLOGY DICTIONARY. Verbetes witch, wizard, warlock.
PATTERSON, Steve; HOWARD, Jeff. “To Reveal the Hidden Kingdom of Eld: Andrew Chumbley, the Cultus Sabbati, and Imaginal Space in Cornwall”. Universidade de Falmouth (repositório).
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Companhia das Letras, 1986.
SUGGETT, Richard. A History of Magic and Witchcraft in Wales. The History Press, 2008. Welsh Witches. 2018.
SURVEY OF SCOTTISH WITCHCRAFT. Universidade de Edimburgo (base de dados).
THOMAS, Keith. Religion and the Decline of Magic. 1971.
LEGISLATION.GOV.UK. Fraudulent Mediums Act 1951.
Museum of Witchcraft and Magic (Boscastle), histórico institucional; Project Islandmagee Witches 1711 (Ulster University); The Cauldron (the-cauldron.org.uk); Xoanon Publishing (In Memoriam: Michael Howard); periódicos acadêmicos brasileiros sobre as Visitações e o Código Penal de 1890.
.jpg)



Comentários