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A Festa de Adão e Eva: Transgressão, Conhecimento e o Arquétipo do Sabá

  • Foto do escritor: Cain Mireen
    Cain Mireen
  • 15 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

“E a serpente disse à mulher: certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”

(Gênesis 3:4–5)


A promessa da Serpente atravessa os séculos como um sussurro perigoso e irresistível. Ela ecoa não apenas no Jardim do Éden, mas em toda a imaginação religiosa, mágica e cultural do Ocidente. Na véspera do Natal, quando a Europa medieval celebrava a Festa de Adão e Eva, essa promessa era reencenada diante do povo como drama vivo e, sem o saber, lançava as bases simbólicas do que mais tarde seria temido como bruxaria.

A Serpente e a Mulher
A Serpente e a Mulher

Durante a Idade Média, o dia 24 de dezembro não era apenas uma espera piedosa pelo nascimento de Cristo. Era também o memorial da primeira desobediência, situado exatamente no limiar entre o mundo ferido pela Queda e a esperança da Redenção. Nesse ponto de transição quando o ano parece suspenso entre o que morre e o que renasce a história de Adão e Eva ganhava força ritual. A humanidade era lembrada de que sua história começa não com a salvação, mas com o ato de escolher conhecer.


Segundo Eamon Duffy, essas dramatizações não eram meras alegorias, mas instrumentos centrais de catequese para uma população em grande parte analfabeta, traduzindo doutrina em imagem viva, memória coletiva e emoção compartilhada. A Queda era encenada no próprio limiar do nascimento de Cristo, criando uma tensão teológica poderosa: a primeira desobediência da humanidade colocada imediatamente antes da promessa de redenção. Essa escolha, dramatizada nas Peças do Paraíso, não era apresentada como um evento distante, mas como uma cena viva, sensorial e perturbadora. A árvore verdejante, carregada de frutos, a Serpente astuta, a palavra sedutora, o gesto decisivo. O público medieval não apenas assistia à Queda , ele a revivia.


Esse posicionamento no calendário não é acidental. A Festa de Adão e Eva ocupa um espaço liminar, uma fronteira entre o ano velho e o novo, entre a noite e a luz, entre a queda e a salvação. Na lógica simbólica medieval, o limiar é sempre perigoso e, por isso mesmo, carregado de poder.


Não por acaso, demonólogos da Baixa Idade Média e do início da Idade Moderna enxergaram na história do Éden um precedente inquietante. A bruxa, assim como Eva, seria aquela que ouve o chamado, aceita um saber proibido e rompe com a obediência absoluta. A Serpente do Paraíso e o Diabo do Sabá passaram a ocupar o mesmo lugar simbólico: o mediador de um poder que não vem da submissão, mas da transgressão.A Queda, então, deixa de ser apenas um erro moral e passa a ser lida como o primeiro gesto mágico: a tentativa humana de atravessar os limites impostos entre criatura e divindade.


Aos poucos, o Éden deixou de ser apenas o jardim perdido e passou a funcionar como modelo imaginativo para o Sabá das bruxas. Banquetes noturnos, voos, assembleias secretas e ritos proibidos foram interpretados como repetições coletivas da primeira desobediência. Jeffrey Burton Russell observa que, na demonologia cristã, o Diabo não cria nada novo apenas distorce aquilo que já existe . Assim, o Sabá torna-se um Éden corrompido, e o pacto, uma paródia da aliança divina.

A Bruxa
A Bruxa

Nesse processo, a Festa de Adão e Eva adquire um significado mais profundo do que um simples prelúdio natalino. Ela passa a marcar, ano após ano, o momento em que pecado, conhecimento e magia se entrelaçam na memória cultural do Ocidente.


Adão e Eva são mais que figuras mitológicas: eles são os primeiros iniciados. Sua história é nossa história. Eles não são apenas os primeiros humanos, mas também os primeiros a fazer o pacto com o mundo invisível. Adão, o primeiro homem, e Eva, a primeira mulher, caminham em nosso lugar, mostrando-nos o caminho da descoberta, da queda e da ascensão. No mistério de Eva, vemos a curiosidade divina que não se contenta com a ignorância; no mistério de Adão, vemos o homem que busca entender e nomear o mundo, mas que também carrega o peso de suas escolhas.

Adão e Eva após a queda
Adão e Eva após a queda

No Jardim, a árvore do conhecimento do bem e do mal não é apenas um símbolo de tentação, mas um símbolo de sabedoria e de poder. A serpente, em muitas tradições esotéricas, é a guardiã do conhecimento arcano, a que desperta a alma para o que está além da percepção mundana. Quando Eva morde o fruto, ela não está apenas desobedecendo a uma ordem divina, mas se entregando à experiência do conhecimento. A serpente, então, não é a vilã da história, mas a portadora da gnose, aquela que nos oferece a chave para acessar as profundezas do inconsciente e as verdades universais que regem o cosmos. O que muitos chamam de pecado, podemos entender como uma elevada transgressão mística uma jornada para o autoentendimento, onde cada passo em direção ao mundo material e à sensualidade é, na verdade, uma aproximação com o divino.


A Festa de Adão e Eva acontecia numa noite ambígua, uma vigília, quando o sagrado ainda não se manifestou plenamente e o profano não foi completamente afastado. Esse caráter liminar da véspera de Natal nem luz plena, nem trevas absolutas fez dela um terreno fértil para associações posteriores com reuniões noturnas, pactos secretos e assembleias proibidas.


Com o tempo, o drama litúrgico do Éden foi reinterpretado através do medo. Aquilo que antes ensinava doutrina passou a alimentar suspeitas. A primeira desobediência tornou-se o modelo arquetípico para explicar o que se acreditava acontecer nos Sabás das bruxas: encontros noturnos, alianças ilícitas, inversões da ordem divina.Em muitos grimórios, a expulsão de Adão e Eva do Jardim é descrita não como um castigo, mas como um rito iniciático de exílio. O exílio de Adão e Eva é o início da jornada do iniciado, que deve agora enfrentar o mundo com os olhos abertos, carregando consigo tanto os frutos da sabedoria quanto as consequências de sua busca.

Albrecht Dürer, Adão e Eva
Albrecht Dürer, Adão e Eva

Assim, podemos olhar para esse momento como a primeira magia prática, em que o humano, ao transgredir, ganha a capacidade de mudar a realidade. Essa expulsão, essa perda do paraíso, é o nascimento do verdadeiro caminho mágico, onde a alquimia da vida se dá através das lições aprendidas nos erros, nas quedas e nas conquistas que vêm depois.

Entretanto, a Festa de Adão e Eva não evocava apenas medo. Ela também preservava outra dimensão profunda: a do jardim. Antes da Queda, Adão é apresentado como aquele que nomeia, cuida e cultiva. O trabalho com a terra não surge como punição, mas como vocação primordial.


“Tomou, pois, o Senhor Deus o homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar.”

(Gênesis 2:15)


Durante séculos, essa imagem sustentou uma espiritualidade onde o contato com as plantas, as ervas e os ciclos naturais era visto como aproximação do estado adâmico original. Jardinagem, herbologia e observação da natureza tornaram-se práticas limítrofes entre devoção, ciência e magia. O jardim passou a ser compreendido como um espaço sacramental, onde Natureza e Graça ainda se tocavam. Não é difícil perceber como essa herança dialoga com a bruxaria: cuidar da terra, conhecer seus ritmos, extrair dela remédio e veneno, bênção e perigo.


Adão e Eva não são apenas os primeiros a conhecer a dor e a sabedoria, mas também os primeiros amantes. A relação deles é uma dança cósmica de atração, desejo, perda e reconciliação. Eles representam tanto o amor divino quanto o amor terreno, aquele que transcende o pecado e que, no fundo, nos ensina sobre união e o poder de amar incondicionalmente.


Em feitiçarias amorosas, os nomes de Adão e Eva têm sido invocados por séculos. Suas histórias de amor e tentação são poderosos arquétipos mágicos que ajudam a conectar os amantes com as forças primordiais do universo. Seja para fortalecer a paixão, manter a fidelidade ou restaurar a harmonia, eles são invocados por aqueles que desejam harmonizar a alma com o corpo, a mente com o coração. Esses trabalhos costumam ser acompanhados pela recitação de Gênesis 2:18:


“E Adão deu nome a todo o gado, às aves do céu e a todos os animais do campo; mas para Adão não se achou ajudadora que lhe fosse idônea”, antes de acrescentar: “traze-me alguém que seja carne da minha carne e osso dos meus ossos”.


No contexto mágico moderno, celebramos Adão e Eva não só como os primeiros humanos, mas como os primeiros magos e os primeiros jardineiros do mundo. Cada jardim cultivado, cada planta cuidada, cada ser nomeado carrega em si o poder mágico de criar, de transformar e de curar. Jardinagem, na tradição esotérica, é vista como uma arte de união com o cosmos, um retorno à harmonia original do Éden, onde criamos ao mesmo tempo que entendemos e damos forma à realidade. Cada gesto de plantar, podar e colher pode ser um ato de conhecimento profundo, onde tocamos as energias invisíveis do universo, dando-lhes forma e função em nosso mundo. Como os primeiros jardineiros, Adão e Eva nos mostram que a verdadeira magia está no cuidado consciente com a criação.

Adão e Eva e seus filhos - Lorenzo de Ferrari
Adão e Eva e seus filhos - Lorenzo de Ferrari


A Festa de Adão e Eva é mais do que um resíduo curioso do calendário medieval. Ela marca o ponto exato onde pecado, conhecimento e magia se encontram. Ao colocá-la na véspera da Redenção, a cristandade medieval reconheceu, ainda que involuntariamente, que a luz nasce sempre à sombra de uma transgressão. O fruto ainda pende da árvore. A Serpente ainda fala. E a pergunta permanece a mesma; obedecer sem saber, ou arriscar o conhecimento?


Nesse limiar, entre o jardim perdido e o mundo habitado nasce a bruxaria, não como culto às trevas, mas como memória viva da primeira escolha humana: ver, desejar e conhecer.


Cain Mireen

Que o Diabo do Sába abençoe todos vocês.



Fontes

Bíblia Hebraica, Gênesis 2–3

Duffy, Eamon. The Stripping of the Altars. Yale University Press.

Rubin, Miri. Corpus Christi. Cambridge University Press.

Bailey, Michael D. Battling Demons. Penn State Press.

Broedel, Hans Peter. The Malleus Maleficarum and the Construction of Witchcraft. Manchester UP.

Russell, Jeffrey Burton. Lucifer. Cornell University Press.

Chumbley, Andrew D. Um: The Grimoire of the Golden Toad.

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